Manual Educativo

Marziale, Maria Helena Palucci. Manual de informações preventivas à ocorrência de acidentes de trabalho com material perfurocortante entre trabalhadores de enfermagem. Ribeirão Preto, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/Universidade de São Paulo – Área de concentração: Saúde do Trabalhador. 2002. 13 pg.

EDITORIAL

O trabalho de enfermagem, assim como inúmeras outras atividades profissionais, apresenta fatores que podem ocasionar danos ou prejuízo à saúde dos trabalhadores devido as peculiaridades das atividades e ao ambiente e condições em que o trabalho é executado. Assim, a adoção de medidas preventivas à ocorrência de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho devem ser adotadas pela instituição empregadora e pelo próprio trabalhador. O manual ora apresentado tem por objetivo oferecer informações aos trabalhadores de enfermagem sobre os fatores de riscos presentes em sua situação de trabalho para que ele possa utilizar estratégias para se proteger. Dentre os fatores que mais causam acidentes do trabalho entre os trabalhadores de enfermagem estão aqueles ocasionados por material perfurocortante, assim dedicamos atenção especial para informações relacionadas aos fatores associados à ocorrência de tais acidentes, a importância da notificação desses acidentes, as medidas usadas para preveni-los e o que fazer quando eles ocorrem.

1. RISCOS OCUPACIONAIS DO TRABALHO DE ENFERMAGEM

Os riscos em potencial a que estão submetidos os trabalhadores de enfermagem podem ser classificados como químicos, físicos, psicossociais, ergonômicos e biológicos .

  • Riscos Químicos
    Os riscos químicos constituem um importante fator predisponente a doenças profissionais e uma ameaça a segurança e a saúde do trabalhador de enfermagem. As substâncias químicas penetram no organismo pelas vias respiratória, cutânea e digestiva, e podem exercer ação nociva sobre os mais variados sistemas do organismo humano dependendo da concentração e do período de exposição ao agente. Dentre os riscos químicos a manipulação de quimioterápicos citostáticos vem merecendo atenção devido a necessidade de observância de medidas de proteção para seu preparo e administração. Os perigos potenciais na manipulação e descarte do quimioterápico, estão relacionados com danos à diversos órgãos do trabalhador como problemas reprodutivos, abortos espontâneos, problemas dermatológicos, alergias, náuseas, dor de cabeça, queda de cabelo e aumento do risco de desenvolver câncer. Portanto é necessário que o trabalhador de enfermagem use as técnicas adequadas de administração desse medicamento, utilize avental fechado na frente, de mangas largas e punhos justos, luvas longas descartáveis de látex grosso e máscara especial com filtro de carvão. Cuidados especiais devem ser dados também as excretas dos pacientes que utilizam quimioterápicos, os quais devem ser manuseados nas primeiras 48 horas com o trabalhador usando avental e luvas. Lembramos ainda, que as roupas de cama desses pacientes devem ser manuseadas pelo trabalhador com as mãos enluvadas e devem ser desprezadas em sacos plásticos fechados e identificados como 'roupa contaminada'.
  • Riscos Físicos
    Os riscos físicos são representados pelas radiações ionizantes (raio x), temperaturas extremas, iluminação, eletricidade e ruído. A temperatura no ambiente de trabalho é um fator que influi nas atividades físicas e mentais do homem. A sensação de bem estar na execução do trabalho situa-se em média em temperatura de 25°C para esforço apenas mental e de 20°C para esforço físico, sob umidade de 50 a 60%, temperatura muito alta ou muito baixa (extremas) aumenta o número de acidentes e doenças. O nível de ruído adequado para o ambiente hospitalar deve estar por volta de 40 decibéis não provocando alterações na acuidade auditiva do trabalhador, no entanto o ruído de aparelhos como respiradores, campainhas de bomba de infusão, monitores entre outros pode provocar irritabilidade e dificuldade de concentração e de atenção. Quanto a radiação, o RX pode ser um problema para a enfermagem, pois trata-se de um agente que não tem cor, forma, odor e devido a essas características muitas vezes não é levado em consideração a necessidade de utilização de equipamentos de proteção pelo trabalhador, porém pode causar sérios danos a sua saúde como; dor de cabeça, diarreia, dor de garganta, alterações no sangue, leucemia e câncer. A iluminação do ambiente no hospital deve ser apropriada a atividade executada. No posto de Enfermagem, por exemplo, onde são preparadas as medicações o iluminamento deve ser de 500 Lux , enquanto que na enfermaria ele deve ser de 200 Lux desde que haja foco em cada um dos leitos. A iluminação inadequada pode induzir a erros e acidentes.
  • Ergonômicos e psicossociais
    Dentre os aspectos ergonômicos do trabalho de enfermagem estão o esforço físico (oriundo de atividades como movimentação e transporte de equipamentos e pacientes, adoção de posturas incômodas, longas distâncias percorridas devido a inadequação de espaços e da organização do trabalho); carga mental (derivado das inter-relações e as situações dramáticas); carga afetiva (que se reproduzem de forma constante); esquema de trabalho, trabalho noturno e ambiente de trabalho envolto a dor sofrimento e morte.
  • Riscos Biológicos
    A equipe de Enfermagem encontra-se exposta aos micro-organismos causadores de infecções devido ao contato com pacientes e materiais infectados e o risco de infecção está condicionado ao agente (virulência, toxidade, dose infecciosa e via de infecção), com o hospedeiro (idade, sexo, gravidez, imunidade e doenças capazes de facilitar a instalação de novos agentes) a atividade ocupacional (técnicas e método, qualidade dos equipamentos e materiais de trabalho, prática de medidas eficazes de higiene e segurança do trabalho). Existem três tipos diferentes de vias de penetração dos agentes biológicos no organismo humano. São eles: cutânea (por meio de ferimentos ou lesões na pele, como aqueles ocasionados por material perfurocortante), digestiva (pela ingestão de material ou alimentação contaminada) e respiratória (aspiração de ar contaminado). Devido a grande manipulação de agulhas, cateteres intravenosos, lâminas, e objetos de vidro pelos trabalhadores de enfermagem durante a execução do cuidado ao cliente, torna-se comum a ocorrência de lesões perfurantes ocasionados principalmente por picadas de agulhas e lesões cortantes devido a manipulação de ampolas de medicamentos. Embora as lesões ocasionadas sejam, na maioria das vezes pequenas, o risco deste tipo de acidente está na possibilidade de contaminação de patógenos veiculados pelo sangue tais como o vírus da Hepatite (transmitida pelos vírus HBV e HCV) e da AIDS (transmitida pelo vírus HIV) que podem ser letais (ocasionar morte).
  • HIV (Vírus da AIDS)
    Entre 1985 e Junho de 1999, foram registrados pelo Center for Disease Control and Prevention (CDC) nos Estados Unidos 55 casos confirmados de infecção pelo HIV e mais 136 casos 'possíveis'de ter acontecido. A maioria envolvendo a enfermagem e técnicos de laboratório, sendo o acidente mais comum o percutâneo (picada com agulha) associado 89% dos casos de contaminação profissional registrados. Destes 44 envolviam agulhas grande calibre, maioria usada para coleta de sangue, ou inserção de cateteres endovenosos.
  • HBV (Vírus da Hepatite B)
    Em 1995 foi estimado que 800 trabalhadores de saúde tornaram-se infectados com o vìrus HBV (Hepatite B) devido a acidentes ocasionados por picadas com agulhas.
  • HCV (Vírus da Hepatite C)
    A Hepatite C afeta mais de 4 milhões de pessoas nos Estados Unidos. Os trabalhadores da área da saúde tem claramente maior chance de se tornarem infectados pelo vírus da hepatite C. O número de infecções ocorridas anualmente é de 2 a 4% e ocorrem em ambiente de trabalho que existe exposição ao sangue. A infecção pelo HCV (vírus da Hepatite C) ocorre frequentemente sem sintomas ou somente se manifesta com sintomas leves, no entanto essa infecção pode levar ao desenvolvimento de cirrose e câncer de fígado.

2. ACIDENTES DO TRABALHO COM MATERIAL PERFUROCORTANTE

Como ocorrem?
Os trabalhadores de enfermagem usam vários tipos de agulhas e outros materiais cortantes para cuidarem dos pacientes. Toda vez que uma agulha ou dispositivo perfurocortante é exposto ocorre também o risco de acidentes. Dados de pesquisas americanas mostram que 38% dos acidentes percutâneos ocorrem durante o uso e 42% ocorrem depois do uso e antes do descarte.

As circunstâncias que levam ao acidente dependem parcialmente do tipo de desenho do dispositivo usado. Agulhas colocadas no final de tubos flexíveis como os escalpes e os equipos de soro, são algumas vezes difíceis de serem descartadas em coletores e, portanto apresentam um risco maior de ferimento. Acidentes envolvendo agulhas colocadas nas pontas dos equipos ocorrem quando o trabalhador insere ou retira a agulha do sistema endovenoso, ou tenta proteger a ponta das agulhas, inserindo-a nos frascos vazios de soro, câmara de gotejamento dos microgotas ou ainda espetando as no leito dos pacientes. Em complemento aos riscos relacionados as características dos dispositivos, acidentes com perfurocortantes tem sido relacionado a certas práticas de técnica de trabalho tais como:

- Encape de agulhas (embora seja uma prática não recomendada no mundo inteiro, observa-se ainda sua execução).
- Não descartar corretamente o material perfurocortante em coletores apropriados.
- Transferência de frasco de exames de sangue.

Como evitar o acidente?

Os profissionais de saúde que manipulam agulhas apresentam um risco de acidente aumentado. Além da possibilidade de adquirir infecções transmitidas pelo sangue o trabalhador sofre com a ocorrência deste tipo de acidente um grave impacto emocional devido as consequências pessoais, familiares e sociais do adoecimento por uma doença infecciosa como a AIDS.

Esses ferimentos podem ser evitados eliminando o uso desnecessário de agulhas, usando dispositivos de segurança, e promovendo educação e práticas de segurança no trabalho para manipular as agulhas.


3. RECOMENDAÇÕES

  • Identificar no local de trabalho quais são os fatores de risco.
  • Estabelecer uma rotina de descarte do material, após a realização do procedimento.
  • Descartar os dispositivos agulhados imediatamente em coletores apropriados de paredes rígidas posicionados em locais de fácil acesso e no limite de alcance dos braços.
  • Promover descarte seguro protegendo o meio ambiente evitando acidentes em outros trabalhadores.
  • Usar agulhas com dispositivos de segurança.
  • Não encapar agulhas.
  • Participar de treinamentos para prevenção de acidentes.
  • Providenciar vacinação contra a hepatite B (3 doses).

4. O QUE FAZER QUANDO OCORREM OS ACIDENTES?

  • Manter a calma.
  • Lavar a lesão com água e sabão.
  • Aconselhar os envolvidos no acidente sobre o significado dos testes a serem realizados.
  • Coletar sangue para exames do trabalhador (teste rápido para HIV, sorologias anti-HIV, HbsAg, anti-HbsAg, anti-Hbc, anti-HCV).
  • Coletar sangue do paciente fonte para exames laboratoriais (teste rápido para HIV, anti-HIV, HbsAg, anti-HCV e doença de chagas se houver história clínica e/ou epidemiológica).
  • Registrar o acidente de trabalho por meio da Comunicação de Acidente do trabalho (CAT).
  • Encaminhar o trabalhador acidentado para a Unidade Especializada de Tratamento de Doenças Infecto Contagiosas para avaliação e tratamento, se necessário.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

É necessário todo esforço possível da instituição e dos trabalhadores para prevenir um acidente com material perfuro-cortante devido as suas consequências trágicas para o trabalhador e para o hospital. Mudanças de comportamento e fatores relacionados aos dispositivos agulhados que contribuem para a ocorrência dos acidentes devem ser avaliados e a notificação do acidente deve ser considerada como uma prática que pode auxiliar a prevenção de futuros acidentes.

6. REFERÊNCIAS

BRASIL. Normas regulamentadoras – NR. Brasília, DF: Gráfica Oficial. 1999.

BULHÕES, I. Riscos de trabalho de enfermagem. Rio de Janeiro, .221p., 1998.

MARZIALE, M.H.P. Condições ergonômicas da situação de trabalho, do pessoal de enfermagem, em uma unidade de internação hospitalar. Ribeirão Preto, 1995, p.155. Tese (Doutorado) – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo.

MARZIALE, M.H.P. Abordagem ergonômica do trabalho de enfermagem. Ribeirão Preto, 1999, Tese (Livre-Docência) – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo

POSSO, M.B.S.; COSTA, D.S.P. Riscos potenciais que envolvem o trabalho no ambiente hospitalar. Revista Âmbito Hospitalar, n.12, 1998, p.13-18.

SILVA, D.M.P.P. O adoecer dos trabalhadores de enfermagem: um estudo dos problemas de saúde responsáveis pelo absenteísmo-doença em um hospital universitário. Ribeirão Preto, 1999. p.139. Dissertação (Mestrado) – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo.
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